*Resenhado por prof. Dr. Láercio Nora Bacelar

Prezadas leitoras e leitores: Convido-lhes a visitar um Museu que é não sendo. Não se trata de um edifício físico, de linhas góticas, barrocas, clássicas, ecléticas ou modernas, com várias seções ou salas, dentro das quais estão expostas coleções de Obras de Arte; tampouco se trata de uma instituição com um acervo precioso de uma ou mais áreas do conhecimento humano, em documentos arquivados, preciosidades ou peças materiais expostas. Do mesmo modo, não é uma construção material para abrigar um rico relicário de objetos raros ou uma miscelânea de coisas diversas devidamente organizadas.

O Museu, ao qual lhes convido prazerosamente, é tudo isso sem o ser, pois sua natureza é imaterial, perceptível pelos sentidos, sensível, mas impalpável. Logo, para adentrá-lo, o bilhete de ingresso é tão somente a sensibilidade; se bem aguçada, melhor. Digamos que seja um “sólido museu sem paredes, suspenso no ar”. Trata-se do “Infindável Museu das Coisas Efêmeras”, bem arquitetado e construído pelo poeta Éder Rodrigues, tijolo por tijolo – leia-se palavras e imagens – cujos pilares centrais são o Tempo e a Memória, tal qual o edifício poético drummondiano. O “arquiteto” e, ao mesmo tempo, autor de todo o valioso acervo interno, dispensa apresentações: é poeta, contista e dramaturgo premiadíssimo em eventos literários e, desde muito jovem, coleciona prêmios e conquista cada vez mais reconhecimento na cena literária nacional. 

Sejam bem-vindos! No átrio, na recepção, um “Efemerofácio” já lhes adianta que este belo projeto poético é, antes de tudo, um Museu cujos alicerces se assentam sobre o sem-chão, ou seja, o terreno imaterial da Poesia. Mais precisamente, a meus olhos, na fronteira rarefeita entre o sublime e o divino. Isso já se evidencia na página seguinte: o tradicional “sumário” cede vez ao “Livro de Tombo”, no qual já é possível antever as surpresas que virão. Quando adentrarem a antessala ou vestíbulo, o “Inventário de Cheganças e Nascença” contém uma peça única, tão preciosa quanto bela, intitulada “Poema”. Antes, um “Aviso”.

Seguem-se outras cinco grandes salas em cuja porta, abaixo do título, a imagem ressignificada de um coração humano sintetiza o acervo interno. A bela ilustração e o título criativo de cada uma delas já nos conduz a uma coleção específica de obras de arte literárias de primeiríssima: poemas talhados com esmero e na medida certa conversam entre si ou intertextual e semioticamente com outras séries artísticas.  Assim, determinadas “constantes simbólicas”, isto é, palavras correlacionadas de um mesmo campo semântico (“marinho”: mar, cardume, mergulhar, veleiro, batel, navio, bússola, norte, ilha etc.) são recorrentes enquanto imagens alegóricas ou metafóricas e “costuram” os poemas entre si. Contudo, nem sempre têm o mesmo valor poético. Do mesmo modo, outras constantes simbólicas são relacionadas à costura (costurar, retalhos, tecer, fios, linhas, agulhas etc.), como em “O mar de Teresa”, belíssimo poema à memória da avó, no qual as duas séries dialogam e se entrelaçam. Vide também as referências pontuais à arqueologia, ao fóssil, ao “achado precioso”, do homo sapiens que se torna homo poeticus. Sabedoria e Poesia são irmãs, Éder Rodrigues traduz isso.

Por outro lado, em “Aquele velho navio”, o título já nos remete à canção “Vapor Barato”, de Waly Salomão e Jards Macalé, eternizada por Gal Gosta no álbum Fa-tal – Gal a todo vapor (1971), com regravações posteriores.  Contudo, na canção, o “velho navio” evoca o veículo para a uma fuga, para o autoexílio em algum lugar no mundo, uma vez que o eu-lírico se sente em “insílio”, isolado dentro de seu lugar, seu país.  Contrapondo-se à uma viagem no “vapor barato”, o poeta Éder afirma que, em sua travessia existencial, “… a arte já me ensinou / a atravessar o mar dentro de um barco de papel”. Poesia é matéria de salvação. Outras intertextualidades sutis, implícitas e pontuais, como traços clariceanos e drummondianos, desassossegos à Fernando Pessoa”, a remissões ao texto sacro (“Ainda que eu me entregasse à linguagem…”) e a referência “morangos mofados” são perceptíveis aos leitores mais experientes.

O mar, em sua impetuosidade e seus mistérios, pode ser uma metáfora do Tempo, no qual a Memória vem em ondas. “A vida vem em ondas, como o mar”, cantou Vinícius de Moraes, em “O Dia da Criação”, verso retomado por Lulu Santos em “Como uma onda”. Ora calmo, ora turbulento, no movimento constante de suas ondas e marés, o mar traz à tona ou à praia fragmentos da Memória que não se perderam em suas profundezas. O mar metafórico a que me refiro aqui é construído pelo poeta Éder paulatinamente. Como um barco deriva, nesse “mar de vivências”, a imagem da ilha também é outra “constante simbólica”. Não por acaso, palavras como “entorno” e “contorno”, recorrentes, são afins às “ilhas”. Assim também no limiar entre o azul do mar e o azul do céu, a cor e a linha do horizonte ganham força poética.

Num outro mar paralelo e não menos impetuoso, o Poeta navega ao sabor dos desejos, das paixões, dos amores. Nesse mar, mais dionisíaco que apolíneo, o nauta flutua como quem sabe domar seu barco sobre as ondas de desejos carnais, entre a terra e os céus. A sensualidade e a sexualidade vêm à tona, aqui e ali, na fronteira mal definida entre o Sagrado e o Profano. O desejo e o prazer, efêmeros por natureza, são sublimados (no sentido psicanalítico) sutilmente, sem culpa e sem pecado. Sim, a realização dos desejos pode ser sagrada tanto quanto pode ser um pecado reprimi-la, recalcá-la, aos olhos de um deus repressor. Com Poesia, todos os pecados são permitidos.

No limiar entre a terra firme (o sólido) e o manto marítimo (o líquido), o Poeta sente e vê o espaço das coisas etéreas (o gasoso) e fugazes, que podem ser captadas, mas não possuídas, porque fugidias, efêmeras, dissolutas. Ele pode captá-las e, ciente de que não pode possuí-las, por meio da palavra poética, pode colecioná-las. Poesia é sua imaterial matéria, sua tábua de salvação e, ao mesmo tempo, sua ilha. Assim sendo, cada poema é, por si mesmo, uma ilha onde aquele que prefere navegar em seus metafóricos “barcos de papel” se salva e se refugia, temporariamente. O conjunto, um arquipélago onde floresce a Poesia.

Em suas inquietações, os olhos são as câmeras que captam essas imagens de coisas não visíveis, mas perceptíveis ao “olhar poético” e sensíveis ao coração.  O mar, o mundo, a existência, enfim, a Vida, cabem num olhar, numa piscadela, numa lágrima, tanto quanto um cisco. Todo homem é uma ilha quando cercado de si mesmo no drama existencial. Nesse caso, cercado por suas vivências e “mundividências”, que ampliam sua cosmovisão. O que há de subjetivo também é humanamente universal. Mas a captação das coisas efêmeras não se dá apenas pelo olhar. Os cinco sentidos são aguçados de tal modo que, não raro, a percepção poética do universo que o cercou, no passado ou no presente, é sinestésica. Se a Memória é a caixinha de costuras, o coração é o alfaiate ou a costureira que emenda, remenda ou borda, com amor, os retalhos de vivências.  Como linhas entrelaçadas, referências a cores, cheiros, sabores, sons e texturas pontuam em determinados poemas com a força expressiva de quem sabe usar outros dois sentidos, a intuição e a inteligência, para transmutá-las em fina poesia. O resultado é uma tessitura muito bem urdida em linhas poéticas.

Contudo, nem todos os poemas são em primeira pessoa. O Poeta também é sensível ao Outro, suas dores e seus amores, seja ele quem for. O drama da Existência individual é universal no Grande Teatro da Vida. Por isso, em uma das salas do “Infindável Museu das Coisas Efêmeras” (não vou citar qual), os leitores visitantes encontrarão poemas dramáticos, tão densamente poéticos quanto dramatúrgicos. Posso adiantar-lhes que o Poeta (e Professor Doutor) transita também pelo texto teatral, como autor.

Aqui não vou detalhar o preciso acervo de cada uma das grandes salas desse fantástico Museu. Descrevê-las uma a uma seria antecipar neste texto as surpresas e as preciosidades ou despir-lhes a fantasia, a magia, o encantamento. Seria como contar às leitoras e leitores o enredo de um belo filme e, com isso, roubar-lhes o direito de se surpreenderem a cada passo na visita. Não pretendo ser um “guia de visitação” ou “guia turístico”, tal como aqueles que explicam detalhe por detalhe de uma catedral gótica, por exemplo. Nem mesmo me atrevo a traçar um roteiro de visitação, porque o “Infindável Museu das Coisas Efêmeras” já é organizado em roteiro, a partir de seu “Livro de Tombo”. Mas posso dizer que, em suas magníficas salas, arquitetadas na medida certa, não há exageros barrocos, nem floreios e rococós. No acervo, passo a passo, à medida que o adentrar, o visitante vai encontrar tanto curvas quanto retas, relevos, desassossegos, inquietações e tentativas de interpretação do Ser e Estar no Mundo Grande, ao longo de uma travessia existencial no eixo do Tempo, o fio de prumo.

Nesse sentido, só posso alertar aos leitores que, nesse Museu, o Tempo e a Memória são os coprotagonistas que contracenam com o Poeta. Enquanto pilar central da arquitetura, o eixo temporal se abre em múltiplas dimensões:   o tempo cronológico (passado – remoto ou recente, presente, futuro), o tempo memorial (lembranças, recortes de memória, saudades), o tempo psicológico (o tempo da individualidade, da consciência em fluxo contínuo). Mais: o tempo existencial (a travessia ontológica do nascer à transcendência), o tempo mítico (a evocação ao tempo não mensurável) ou tempo do “era uma vez”, sem data definida, tempo de um retorno às origens e seus ciclos (ir e vir, devir, advir, porvir). Vai e vem. Ciclo. Espiral. Parafuso sem Fim.

Assim, ao longo da travessia psíquica e existencial, no eixo do Tempo, a Memória caminha lado a lado com o Poeta. O colecionador de “coisas efêmeras” e “titicas” não tem receio de expô-las. Antes, sem orgulho besta, apresenta-nos suas coleções de miudezas, aparentes “insignificâncias” não-materiais, às quais o senso comum não lhes atribui valor. Porém, é nelas que concentram as atenções do Poeta. São elas, as coisas etéreas e fugidias os mais preciosos objetos dessas riquíssimas coleções em cada uma das salas. Recém-inaugurado, o “Infindável Museu das Coisas Efêmeras” está aberto ao público, 24 horas por dia, 365 por ano.

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Láercio Nora Bacelar é Doutor em Artes/Linguística pela Universidade Católica de (Nijmegen – Holanda). Professor Doutor aposentado com atuação em várias instituições federais de ensino no Brasil. Sua tese de doutorado “Gramática da língua Kanoê” (Nijmegen – NL: KUN, 2004) é uma publicação de referência na área da Cultura e da Etnolinguística, promovendo o resgate, a documentação e a análise da língua indígena Kanoê. É também escritor, poeta e contista, além de letrista de várias canções do circuito da música popular brasileira.

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