Resenhado pelos escritores Yndiara Macedo e Nestor Lampros

As palavras, na literatura de Éder Rodrigues, fazem com que o leitor se torne participante daquilo que as palavras desgastadas querem e clamam: que as façam vivas, novamente.

O seu Museu das Coisas Efêmeras comporta-se como uma amálgama de um registro fiel ao que ele, seu autor, desenvolve há anos. Detentor de prêmios literários por todo o Brasil, seu museu cataloga com a força da palavra as aberturas que as possibilitam a voar de novo, tal como as descobrimos em poetas vigorosos como Hilda Hilst – sempre presente carinhosamente em Éder.

As memórias da infância e sua busca de expressão, coordenados na sua visão que transfigura com arte as coisas mais banais, em Éder Rodrigues se tornam mais do que um apanhado de referências; dizem respeito ao momento da existência fundadora de uma mitologia própria escavada em torno da água, e das coisas “inúteis” – para aqueles que consideram o que disse o grande pintor catalão, Juan Miró, sobre pintar o inútil, o pequeno, o ínfimo, e que faz coro o grande Manuel de Barros, na sua busca em catalogar efeitos climáticos, a periodicidade das lesmas e o poder das goteiras. Éder Rodrigues é mineiro e tem uma seminal busca pela forma, se não a mais perfeita, a mais expressiva. Esta busca por princípios desenvolve a perspicácia de um material rico onde forma e conteúdo estão de acordo com a mensagem da sua poesia. Essa busca vem a ser forçosamente e claramente um grande abrigo voluntário para conhecer-se e também o mundo onde ele se situa. A descoberta de si é o mesmo descortinar de sua poesia. Nada mais notável na sua catalogação lírica do infindável das coisas. Mesmo que estas coisas sejam ínfimas, precárias ou sem a probabilidade de se constituírem e ficarem de pé por força própria, precisam de quem as façam, no reino das palavra,s tornarem-se matéria-prima e verdadeira da arte de escrever.

Ao poeta, ao artista, cabe a missão de ordenar, mesmo antevendo o caos de uma época, nesta em que vivemos, sua própria maneira de apresentar ao mundo o seu mundo, com pinceladas claras e na efêmera tendência da vida cotidiana. Razão pela qual seu livro não consegue passar despercebido, a nos oferecer, a sua busca e seus encontros, seus encantos e seus entornos.

A busca de uma ordem, alguma ordem, se faz com a criação de um vocabulário, com a maneira com que o poeta utiliza a língua para seus fins. O amor às palavras se revela, assim, de maneira nunca cruel, e sim, amorosa, terna e com uma carga de parcimônia concentrada no seu alvo e objetivos: congregar pessoas e o mundo ao significado simbólico desse mundo de palavras. E fica a pergunta pungente de Drummond:

– Trouxeste a chave?

A chave da escrita de Éder é a experiência de suas andanças pelo Brasil, colecionando amigos e pessoas das quais gosta e que congregam neste mundo aberto ao que se situa em várias realidades. A sua infância também requer uma aproximação dos fatos que o autor leva para os seus poemas, seguramente. Outro assunto e a forma sutil do amor e da fragilidade do mesmo, tendo como exemplos a literatura libertária de Hilda Hilst – a quem o próprio Éder vê com muita afetuosidade e carinho. Uma influência marcante e seminal na sua poesia, bem como o prestigiado Guimarães Rosa a quem o poeta homenageou neste livro com o poema Tons de Rosa.

Voltando à poesia de Éder Rodrigues, a sua vivência criativa se desdobra com a presença do material técnico: o uso de versos livres; a mistura da prosa poética com  a poesia em estrofes, a entonação do mágico e do sublime sobre o prosaico, mas que não o nega pois o faz ascender a novas alturas; a musicalidade, melopeia (Pound), de forma sutilíssima e sábia – para não pararmos nas marcações como preconizava em outros tempos a poesia.

A voz do poeta é de uma autêntica confissão. É um sussurrar da sua voz e das coisas ao seu redor.  A confissão que não faz a uma entidade como Deus (que Éder grafa com minúscula: deus), nem dele provém – ou melhor, se consubstancia n’Ele, e em tudo-, substitui pelo caminho traçado na sua poesia ao demiurgo – ao eu-lírico.  A carga simbólica encontrada em sua poesia diverge de uma lógica retilínea, investe na curva quase de um barroquismo, por excessos do que se fala, transbordamentos de paisagens, e uma natureza pujante onde não há bosques tratados, e sim uma floresta enorme e primordial, na própria nascente do mundo.

Mas as imagens protagonizam em sua obra poética, no Infindável Museu das Coisas Efêmeras a preponderância. A Casa do Sol de Hilda Hilst também ilumina os poemas de Éder. O museu, casa das coisas que notoriamente se perdem, nela se conservam graças ao amor- este sentimento que nunca se desgasta, e se aperfeiçoa na vida do poeta-Éder Rodrigues.

Yndiara Macedo é escritora e recentemente lançou o livro Mar pela janela, publicado pela Editora Lux. Nestor Lampros é artista plástico e escritor, autor de Roupagem leve, publicado pela Editora Patuá.