Resenhado por Éder Rodrigues

Já faz um bom tempo que a escrita de Henriette Effenberger chama a atenção não apenas pela literariedade impressa na sua prosa vigorosa como também pela forma com que conduz o seu ofício de escritora. Premiada em vários certames, presença inesquecível em feiras e festivais literários, a bragantina tem a sutileza de recolher o invisível das camadas sociais e sublinhar os pontos nevrálgicos de suas raízes.

“Fissuras” é um livro de contos editado em 2019. A autora publicou anteriormente “Linhas tortas”, mas é neste novo livro editado pela Penalux que sua escrita nos conduz de forma firme aos recônditos e incômodos que as fissuras de toda estirpe são capazes de causar, seja na superfície das coisas como nas camadas abissais da história do próprio homem e sua desumanidade.

Ler Henriette Effenberger nos coloca em dois vetores complementares: o primeiro que nos desperta para a força que a palavra tem na transformação do mundo e, o segundo, que explicita uma linhagem de mundo transformado pela palavra capaz de desobedecer ventos e moinhos.

No livro de 20 contos, sem dúvidas “O demônio quando quer ficar bonito” é o que mais sintetiza a agudez de seu discurso, operado de forma cuidadosa e certeiro pela contista. O tom de denúncia, a coloquialidade impressa e o viés emergente dos diálogos que compõem a narrativa elevam o conto a uma exatidão que consterna. O conto também abre alas para a construção de vozes subalternas, personagens insurgentes que protagonizam as narrativas num caleidoscópio de emoções e singelezas extraídas por um coração que milita.

“Picada de saudade é melhor que a indiferença”, trecho que compila de forma mais pontual o conjunto de temas que atravessam apitos sucessivos que despertam o proletariado insone até os miados que farejam a morte. Navegar não basta. É preciso mergulhar nas feridas e é este o principal convite que o livro apresenta. Os recursos da contista são variados, do humor refinado à ironia mirabolante, do erotismo cotidiano ao imaginário social que a autora ataca com todos os temperos possíveis.

Os contos são escritos dentro de uma premissa linear, propiciando um passeio pelas prerrogativas que identificam o gênero desde seu surgimento, ainda que a própria autora escolha alguns contos especiais para quebrar com a própria linearidade e o prospecto narrativo que delineia a evolução dos personagens dentro de um princípio de causa e verossimilhança.

Sobram sabores em seus pratos, sublinha-se uma pulsão inerente e resistente que faz do tecido de vozes construído um eco ensurdecedor que parece gritar para o mundo a dor de fissuras anestesiadas pela sociedade e pelos rumos que estamos tomando.

Henriette Effenberger não se rende e “Fissuras” nos enlaça pelas mãos e acalanta o coro que há de se construir nas margens do impossível.

Resenha de Éder Rodrigues – Escritor e Dr. em Literatura Latino-Americana pela Universidade Federal de Minas Gerais. Autor das obras Três Vírgula Quatro Graus na Escala Richter (Finalista do Prêmio Guarulhos de Literatura 2019) e do recém-lançado O Infindável Museu das Coisas Efêmeras (2020).