A tarefa de apresentar um escritor e sua obra geralmente se torna um trabalho de mapeamento do que o circunda, dos reflexos que surgem na escrita e do percurso que o leva para o ensejo de gestar um livro e partilhá-lo com o leitor. O nome de José Ronaldo Siqueira na literatura contemporânea brasileira não surge com esta obra, já que o carioca residente em Mutum/MG estreou oficialmente com o livro de contos O prisioneiro, publicado em 2011. Paralelo a esta estreia solo, o autor vem cartografando seus passos e arredores através dos inúmeros festivais literários que receberam e projetaram sua escrita antes mesmo do nascimento desta obra.

José Ronaldo Siqueira já há algum tempo tem nos presenteado com uma escrita multifacetada que passeia por gêneros distintos. Este seu novo livro reúne essa experiência multiforme em torno de uma espécie de novela rapsódica experimental que traz na sua essência tanto a subjetividade discursiva da crônica como a contenção da variabilidade poética. Ao estabelecer vários enredos ao longo do prospecto narrativo, o autor constrói uma escrita híbrida que, partindo de um fluxo de consciência, acaba tomando vida própria e conduzindo o olhar, as percepções que a obra promove.

O tom rapsódico sublinha a ideia de movimento e de recolhimento das variações, das intensidades e dos impactos da jornada. Nesse sentido, partimos na cadência edificada pelo autor até sermos surpreendidos por uma obra com ritmo próprio, que desenha e subverte a lógica no intuito de proporcionar ao leitor um percurso mutante diante de si mesmo.

Este caminho embaralhado e completamente entregue a uma experiência errante de (des)construção dos próprios passos se torna o ponto alto do livro que, basicamente, traça um percurso no qual um monstro se humaniza ao mesmo tempo que um homem se depara com os reflexos de sua própria monstruosidade. Esta linhagem acaba sendo desfiada pelo autor diante das inúmeras belezas e consternações que o embate proposto sedimenta.

Este Manual de instrução não injuntivo de como se criar um monstro avança na medida em que recua.Surpreende na medida em que se certifica de coabitar um mundo de espantos, abstrações e fragilidades. Trata-se de um livro de trânsitos e deslocamentos por lugares, espaços e situações em que importa capturar o cronicamente inviável ou rir de si mesmo. Os caminhos “monstruosos” aqui traçados irrigam projeções que espiam a dádiva e o tortuoso do humano contorcido pelo tempo e pela própria natureza existencial. Paradoxos são revisitados de forma peculiar, em traços que unem a anotação do aparentemente banal com a transformação dessa banalidade em essência e pulsão.

Um detalhe importante que permeia todo o livro é o fato do autor expor nesse caminho percorrido o próprio labor da criação, expondo suas agruras e intermitências. O embate com as palavras – tão enfático na fala de outros escritores – ganha uma dimensão própria no processo rapsódico de humanização de “um monstro”, assumidamente poeta, que utiliza desta metáfora de forma lírica e instigante. A não injunção deste manual adianta a liberdade criativa de se estender ou de se conter nas páginas que seguem, sem linhas regráveis ou horizontes palpáveis, aspecto que, inclusive, se torna o responsável pela fluidez da obra. 

Os caminhos monstruosos aqui traçados irrigam uma esfera humana de projeção, dádiva e redescoberta de si. Ao refinar o contato situacional da descoberta, José Ronaldo Siqueira vai desvelando essa ação monstruosa que o tempo encorpa no insondável das complexidades e no, aparentemente, impossível.

O percurso mutante é facilmente observável no transcurso de um escritor que escancara sua própria arte, e que faz do exercício da palavra o fio condutor que permanece no livro todo. As engrenagens movidas são provocativas, irônicas, sarcásticas, memorialísticas, situacionais, carregadas de um humor ácido e de uma poesia latente.

Nesta mutação crônica e poética da vida e do exercício de vivê-la, o autor expõe o próprio percurso tortuoso da escrita ao leitor que, pouco a pouco, também vai se tornando parte desta mutação, deste monstro que vamos nos tornando diante do crível e do incrível da experiência humana.  

O livro publicado pela Editora Patuá foi um dos vencedores do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional 2019, na categoria “romance”. E para celebrar, o autor acaba de publicar seu novo livro “Atlas anatômico para almas puídas”, também pela Editora Patuá.

  • Resenha de Éder Rodrigues – Escritor e Dr. em Literatura Latino-Americana pela Universidade Federal de Minas Gerais. Últimas obras lançadas:  O Infindável Museu das Coisas Efêmeras (2020) e Três Vírgula Quatro Graus na Escala Richter (um dos vencedores do Prêmio Guarulhos de Literatura 2019).