O amor, em suas mais diversas formas de tessitura e sentimento, protagoniza o livro de estreia do cearense Diego Gregório. A obra retoma o corpo enquanto espaço para trilhas, fôlegos e tentáculos.

Um dos poemas que mais me chamou a atenção na obra traz um pouco das redes atiradas ao mar para seduzir ou atiçar os nossos sentimentos, às vezes, adormecidos demais em meio à pressa cotidiana.

“Ninguém sabe o que repousa

sob a sombra do coração de um homem.

Ninguém sabe que rasteiras,

Narcissus poeticus ou Anthuriums

nascem dos canteiros  da minha boca.

De quando o tardio se tornou agora,

de quando nunca será tarde demais.

Ninguém sabe, ou diz não saber,

que é preciso coragem  para dizer “sim”,

assim como os dragões daquele livro,

ou do trecho de uma carta perdida

que diz assim:

“o dragão, quando quer dizer que ama,

bate a cauda no chão três vezes”. (GREGÓRIO, 2021, pg. 69)

O poema Narcissus poeticus integra o livro e pode ser lido como um farol para os escuros, as encruzilhadas e as delícias que a obra descortina.

Ainda que o livro tenha como eixo o secular temário do amor, torna-se deliciosa a forma como o autor vai tecendo seus desdobramentos, descobertas, mergulhos e vivências. Trata-se de um livro de mergulhos dentro das camadas que a nossa matéria, corpórea e incorpórea, é capaz de suspender, tensionar e se entregar.  

Na obra, o amor vai multiplicando seus laços, suas formas, seus contornos e suas variáveis, até que o livro, entrelaçado em meio a palavras e imagens, esculpe uma liberdade tão cara ao corpo como foi o secular processo de silenciamento dele. É neste momento em que o autor se distancia da contemplação e testa o próprio fôlego do atrito entre os corpos que a obra ganha altura.

Nesta perspectiva, Coisas que você mesmo poderia ter dito encontra ecos neste poemário que, de forma elegante, diz por si, por muitos, por formas não hegemônicas de ser e estar e que encontram, no berço da palavra, o espaço cativo para a orgia de suas fontes, águas e recuos.  Talvez sejam coisas que até chegamos a dizer, mas que já não escutamos o suficiente no fluxo natural dos tempos e que, portanto, se torna ofício do poeta e deste artesão da palavra.

A epígrafe de Hilda Hilst “Embora sinta, muitas vezes, que a poesia é incomunicável, publico meus versos justamente  pela vontade  de comunicação” norteia pontos de referência e também estende o lençol onde o autor se deita.  O livro, de 108 páginas, possui 45 poemas, prefácio de Nádia Sousa e contém ilustrações muito sugestivas assinadas por Gustavo  Diógenes.

Diante dos sabores e formas de compartilhar este elo, tão recorrente, difícil e prazeroso, apelidado de amor, fica o gostinho de quero mais, algo que o autor, com toda a certeza, já está providenciando.

Resenhado por: Éder Rodrigues