Rastro do Peixe

A água que move

sem qualquer memória”

Este rastro é apenas uma das capturas que a escritora Maria Beatriz Freire celebra com esta obra.

Com este livro de estreia, a autora nos apresenta um breviário de caminhos possíveis cujo ofício em torno da palavra se torna a essência da busca, dos atalhos e da poeticidade. A contenção e a sutileza surpreendem pelas definições poéticas que ressignificam o cotidiano e os modos de existência, no caso, brincando com o jogo entre significantes e significados.

O poder de síntese e de concisão reafirmam as redescobertas do que é transitório e também das permanências que vão sendo reveladas a cada piscar.

Saudade

Visita

de quem partiu um dia

E nunca

foi embora.”

A obra é dividida em três partes: Cismas & Rimas, Definições Poéticas e Di Versos. Chama a atenção principalmente a segunda parte do livro em que a autora passa a ressignificar inúmeros vocábulos a partir das dobras e avessos da palavra.

Trata-se de um instigante passeio em que o reflexo e a refração de cada poema ampliam a dimensão dos itinerários. O convite para um olhar que ultrapasse a superfície das coisas potencializa cada página dessa obra repleta de capturas, frestas e abstrações.

Mãe Sidão

A mãe que tive

foi tão imensa

que sinto e penso

que ainda tenho”.

Há também o labor poético que descortina frentes e frontes capazes de revelar e de resgatar o tom reticente que a própria vida sopra no instante e no desassossego de cada olhar.

Resenha de Éder Rodrigues – Escritor e Dr. em Literatura Latino-Americana pela Universidade Federal de Minas Gerais. Autor de  O Infindável Museu das Coisas Efêmeras (2020) e da obra Três Vírgula Quatro Graus na Escala Richter (Finalista e um dos vencedores do Prêmio Guarulhos de Literatura 2019).