Resenha de Vivian de Moraes – Livro “O Infindável Museu das Coisas Efêmeras”

Sabe aquele bolinho de chuva cujo gosto você ainda sente após tantos anos distante de sua infância? Não foi sua mãe quem fez o bolinho, foi o tempo. O gosto foi mudando, você nem foi percebendo. Não somos donos de nada, nem de nós, nem de nada no mundo. Nada para, tudo evanesce. Essa impermanência está captada em O infindável museu das coisas efêmeras, de Éder Rodrigues (Telucazu, 2020, 123 pp.). É um livro de suavidades e desesperos, de buscas e (des)apreensões, de sustos e de calmaria, em que o trem leva ao mar, mas o mar não volta ao interior do círculo familiar onde a avó cozinha para seu neto.

O livro é dividido em seis partes, cada uma com uma ilustração de coração do artista plástico Cláudio Zarco: “Inventário de cheganças e nascença” é a primeira, e tem um único poema, chamado “Poema”, em que “Poema” é um cachorro metafórico. É importante dizer que no livro há muita metapoesia, mas não essa metapoesia chata e mal realizada que está em quase todos os livros do gênero nos dias de hoje. Éder sabe como usar sua pena. E se “Poema” é uma metáfora, também há que se acrescentar que ele tem domínio pleno deste recurso que é o primordial da poesia e que ele a emprega com muita sutileza, delicadeza e propriedade.

O segundo momento do livro é “Acervos de quintais, esquecimentos e outros detalhes que empoçam dentro do olho”. O próprio título demonstra que, agora, a busca de fixar num museu sem paredes as coisas efêmeras realmente começou. Como no início do poema “Ossatura”:

O valor de um diamante não se mede apenas

pelo incontestável do brilho e seus quilates.

Mas pela imensidão de terra que

mesmo depois de arrancada

nunca deixa de fazer parte dele.

Notas e arcadas também são esculpidas

                                                           pela escuridão do ventre

[…]

Uma característica da produção poética de Éder Rodrigues são os poemas longos – o que até atrapalha redigir uma resenha, pela dificuldade de extrair fragmentos (outra face do museu de efemeridades?). Ele costuma nomear um poema e dividi-lo em números romanos, sem perder o fio da meada, sem que isso seja gratuito, tornando cada um desses poemas uma potência lírica. Na terceira parte, “Delicário [Coleção de delicadezas, tristesses e profundâncias]”, no poema “Claricidências”, seção III, temos o seguinte excerto:

Abandonei museus de lirismo e tristesses

e não me arrependo nem um pouco.

Tenho como selvagens

as hélices que o coração acelera

quando ameaça sair pela boca

Não recriei nenhuma via-crúcis

repartida em estações, embora seja em cruz

que me deito quando o amor chega sem avisar. […]

O amor também está presente no livro, mas sendo muito fugaz como o autor propõe para o projeto de seu museu de coisas efêmeras. Nada de bodas de prata ou de ouro, só a respiração acelerada do corpo. É assim que o autor entra em “Arqueologias dos desejos e perdições”, a quarta parte. Há sensualidade em cada desejo e evanescência em cada perdição, mas há também espaço para a insuspeitada intervenção de um poema como “O rosa do papel de pão”, um poema feminino, que narra o encontro diário com um padeiro de rua, uma coisa antiga, mas um ritual tocante que leva o leitor a pensar nas situações de sua vida que ele quis nutrir como lembrança. “Foi nessa época que senhoras do que sentíamos/ agradecíamos pelo milagre do trigo/ com nosso silêncio de dessas.// Na calma com que recolhíamos todos os desejos do dia. Para depois escrevê-los naquele rosa tão íntimo/ dos papéis de pão.” Mas será que conseguimos?

A quinta parte se chama “Catálogo de sopros, disritmias e outras pulsações que fazem o coração bater fora do peito”. Destaco aqui o poema longo “A arte de esperar pelas chuvas”, com o seguinte excerto:

II

O homem é quase terra. O homem é quase homem.

Lavra-se. Prepara-se. Despe-se das roupas que o silencia

dos antepassados que assolam Adão e seus pomos.

Depois de atear sua nudez aos ventos,

abre-se como terreno a sonhar sementes.

Em campos de muita paz, nada sobrevive aos danos,

às pragas que se perpetuam na solidão dos campos.

A ancestralidade desse poema é comovente, como todo o livro é, a cada capítulo, com o seu estilo próprio. E a ancestralidade não está só aqui: ela permeia as páginas. Talvez o autor esteja querendo brincar com a gente, dizendo fazer um museu infindável de coisas efêmeras, mas colocando nele coisas nada efêmeras vez por outra.

“Manuscritos da notória turvação entre um abismo e outro” é a sexta parte do livro e tem dois poemas: “Textamento” e “Se fôssemos eternos”. Mas, sobre esses, eu não vou dar nenhuma pista. Seus nomes já dizem muito. Quando o leitor chegar ao fim da leitura de O infindável museu das coisas efêmeras ele vai se emocionar com esse belo arremate.

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Acesse o site para acompanhar o trabalho do autor: http://ederrodriguesescritor.com.br/